
Foto: Rita P.Braga
E, se no estado do Facebook, o Pedro estivesse numa relação com o Eduardo ou a Maria estivesse numa relação com a Ana?
Em Portugal, estas são realidades que pouco se vêem, mas que existem. Porque o amor não escolhe idades, mas também não escolhe géneros. A orientação sexual nasce connosco e não é uma opção.
De acordo com várias associações, apesar de haver mais informação, o preconceito reina e crescem as denúncias anónimas e os desabafos. “A nível de denúncias, a minha percepção é que têm aparecido mais. Os jovens utilizam muito a nossa página do Facebook para pedir ajuda”, revela Paula Antunes, fundadora do Caleidoscópio. A activista revela que a homofobia aumentou porque a homossexualidade é mais visível. “As pessoas assumem-se mais e temos uma reacção directa”, explica.
Um jovem, menor de idade, que foi expulso de casa pelos pais que lhe retiraram todo o dinheiro; uma jovem que a mãe levou ao psiquiatra; uma estudante da Universidade do Porto que reprovou 2 vezes à mesma disciplina porque a docente não aceitava a sua homossexualidade; um pai que achou que o filho não tinha o direito de ser homossexual porque ele “se controlou” para não o assumir.
Estas são histórias que chegam aos ouvidos de quem se presta a ajudar e que até já saltam para as páginas dos jornais. Não há números concretos, apenas casos que, pela sua multiplicidade e natureza, denunciam que há muito a fazer no combate à discriminação.
Voltando ao Pedro e à Maria, falamos de pessoas como nós. E ele não é, ao contrário de ideias pré-concebidas, efeminado, ao passo que ela também não é masculina.
Marta (nome fictício) não quer ser conhecida como a “amiga lésbica”. Para a jovem de 24 anos, a homossexualidade é só uma parte da sua vida. “Sou eu própria, sou normal. Alguma vez olhava para mim e dizia que era bissexual?”, perguntaRafaela (nome fictício), estudante de 27 anos.
“Tenho muito receio de contar aos meus pais”
A primeira pessoa da família de Marta a saber foi a irmã mais nova. A reacção não foi positiva, como Marta esperava. A irmã decidiu contar à mãe e Marta passou a ser um “fantasma” em casa. “Ninguém falava comigo”, relata a estudante do Porto. “A minha mãe deixou de me dar dinheiro. Não tinha nem para a renda, nem para as propinas, nem para nada”, continua.
Esta é uma reacção que se repete, segundo várias associações, em muitos casos, e um pouco por todo o país. Por isso, muitos jovens, como Ana (nome fictício), decidem não contar. O medo da reacção e a situação de dependência dos pais ou dos encarregados de educação em que se encontram são os principais motivos. “Tenho muito receio. Dou-me muito bem com os meus pais, mas não sei até que ponto eles estavam preparados para ouvir isso. Quero primeiro ter independência financeira”, desabafa a jovem portuense de 21 anos.
Ana Raquel (nome fictício) vive uma situação semelhante. A estudante de Viana do Castelo, que não assumiu a homossexualidade em casa, conta com uma reacção negativa por parte da família no futuro. “Por vezes, cá em casa surgem comentários do género ‘Eles deviam era estar todos presos, essas aberrações da natureza’”, conta, justificando o receio.
“Enquanto que, anteriormente, o problema era chegar a casa e dizer ao pai que se estava grávida, agora o problema é dizer-se que se tem uma namorada e não um namorado”, explica Maria, bissexual, de 28 anos, que entende que os jovens devem exigir “respeito” e “aceitação” por parte da família. “O amor é natural, não se escolhe, acontece”, remata.
Reprovou 2 vezes a uma disciplina por ser homossexual
À dificuldade de os pais aceitarem ou mesmo à não aceitação por parte da família, acrescem os relatos de casos de bullying e de discriminação nas escolas, por parte de alunos e professores.
Foi o que aconteceu a Marta (nome fictício), estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que reprovou 2 vezes à mesma disciplina porque, alegadamente, uma docente não aceitava a sua homossexualidade. “Tive um problema, no fim da licenciatura com uma professora, que me disse abertamente e com todas as letras ‘enquanto se andar a passear com a sua namorada nos corredores da faculdade escusa de vir ao meu exame’ e eu fiquei a olhar para ela”, contou.
Embora a família e amigos mais próximos saibam, Marta pediu à reportagem do P24 anonimato por razões profissionais. Existem muitas empresas que julgam os trabalhadores “pela vida pessoal”, explicou. “Se algum dia pensares em vir trabalhar para esta empresa, que não te passe pela cabeça que eles saibam que tu és lésbica, se não despedem-te na hora”. Foi este o aviso que recebeu de uma colega de curso.
A escola começa a ser palco de situações de discriminação nos ensinos básico e secundário. “Fufa” e “ele/ela” foram expressões que Isabel Martinez ouviu repetidas vezes no estabelecimento de ensino que frequentava na zona da Foz, Porto. “Depois do meu coming out, as pessoas passaram a comentar muito. Senti-me discriminada em várias alturas, mesmo até por alguns professores”, explicou. “Na escola onde eu andava eram muito conservadores e elitistas”, justifica Isabel o injustificável.
Para combater a discriminação e desfazer os preconceitos que existem na sociedade e, sobretudo, no meio escolar, a rede ex aequo – associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes criou os Projectos Educação, em 2005 e Inclusão, em 2009, com o objectivo de sensibilizar e informar.
Excerto de reportagem realizada para o Porto24:
Leia aqui as restantes partes da reportagem:
Fotos da autoria de Rita P. Braga.